Falências em massa refletem timidez e erros nas ações do governo

Em março, logo no início da crise, o Atlântico – Instituto de Ação Cidadã traçou os possíveis cenários decorrentes da pandemia do novo coronavírus. Nas hipóteses do isolamento social terminar em meados de maio e da ausência de um plano estratégico coordenado de combate à pandemia de Covid-19 e aos seus efeitos sobre a economia, haveria uma queda do PIB de 4,5% em 2020.

A política negacionista do governo, a ausência de uma coordenação nacional das ações de controle da pandemia e a escassez de crédito para socorrer as pequenas e médias empresas fizeram com que a crise sanitária se estendesse e se aprofundasse. Logo, os agentes de mercado assim como diversos órgãos e instituições passaram a prever uma queda ainda maior do PIB. O FMI chegou a projetar uma queda de 9,1% do PIB deste ano.

Dados da pesquisa “Pulso Empresa: Impacto da Covid-19 nas Empresas” do IBGE indicam um número assustador de falências de empresas na primeira quinzena de junho. De um universo de aproximadamente 4 milhões de empresas existentes no país, cerca de 1,3 milhão de empresas fecharam temporariamente ou definitivamente no período (610,3 mil ou 15% fechadas temporariamente e 716,4 mil ou 17,6% fechadas em definitivo). Muitas destas empresas já vinham com dificuldades, devido à forte recessão dos anos anteriores, porém 522 mil empresas declararam ter fechado devido ao avanço da pandemia de Covid-19 no país. Destas 522 mil empresas, 99,2% (518,4 mil) eram de pequeno porte, ou seja, empresas com até 49 empregados. Não houve fechamento definitivo de grandes empresas no período.

Das 2,7 milhões de empresas em funcionamento na primeira quinzena de junho, 70% informaram efeitos negativos nos negócios causados pela pandemia, sendo o principal deles a queda das vendas de produtos e serviços. As empresas também declararam dificuldades de fabricar produtos e atender clientes, assim como de acesso a fornecedores. Do total de empresas, 34,6% reduziram o número de trabalhadores.

A magnitude do impacto da pandemia sobre a atividade empresarial indica a dimensão do desafio que o Brasil tem pela frente, com um cenário de destruição de empregos e concentração de negócios. Agravando a crise, a queda da arrecadação e o aumento dos gastos do governo com a pandemia pioraram o déficit público e aumentaram a dívida pública.

Ainda em março, o Atlântico advertiu sobre a necessidade de medidas rápidas e arrojadas para promover a retomada do crescimento econômico. O Instituto sugeriu a utilização de recursos empoçados, tais como os depósitos compulsórios e as reservas bancárias, para dar suporte às empresas durante a crise e para realizar investimentos em infraestrutura. Ao mesmo tempo, ressaltou a importância do contingenciamento das despesas públicas não relacionadas com a saúde, mantendo o equilíbrio orçamentário de longo prazo. A equipe econômica segue com as mesmas propostas de antes da pandemia, ignorando que os novos tempos exigem novas respostas – e respostas criativas e audaciosas. A criação de um novo imposto sobre operações financeiras no molde da antiga CPMF e a venda de estatais não são as medidas ideais ou suficientes para uma crise desta proporção.

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